Revista Vascular IN

O Dr. Carlos Rosa convidou-me para colaborar em sua excelente revista Vascular IN; isso honrou-me, pois é uma revista que já deu certo e está em sua 16ª edição.
A primeira colaboração foi uma entrevista onde respondi perguntas que abriram minha vida aos jovens médicos e também, acho, aos jovens que sonham em ser médico. Melhor que o sonho é sua realização. Sonhem, mas sonhem alto e lutem para realizar seu sonho!
INM
Prof. Dr. Irany Novah Moraes: mini-currículo
Diplomado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Doutorado com Tese na Cátedra de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Livre-Docente de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Bolsista do Governo Francês, na Universidade de Strasbourg; da Capes, na Northwestern University, em Chicago, nos Estados Unidos; e da Fundação Alexander von Humboldt, na Alemanha. Prêmio Jabuti 1993 de melhor livro de Ciências Naturais e Medicina. Medalha Cultural Oscar Freire, conferida pela Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de São Paulo e pela Sociedade Paulista de História da Medicina. Medalha de Mérito Angiológico René Fontaine no grau de Mestre, conferida pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Medalha de Honra ao Mérito do Governo do Estado do Pará. Membro da Academia de Educação (cadeira nº 12, patrono: Júlio de Mesquita Filho). Presidente da Academia de Medicina de São Paulo (1983-1985). Presidente da Federação Brasileira de Academias de Medicina (1994-1996). Professor Titular de Cirurgia Vascular da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro. Professor Associado de Cirurgia Vascular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Chefe do Laboratório de Investigação Médica em Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médico Legista do Estado de São Paulo. Publicou artigos científicos em revistas nacionais e estrangeiras, e de divulgação científica no jornal O Estado de S. Paulo. Editor da revista Carisma: formação do médico e Diretor Responsável da Revista Cultura & Saúde e da publicação virtual www.culturaesaude.med.br, [email protected], www.moraes.med.br.
Quantos livros editou e de qual gosta mais?
Cada livro é como um “filho”; o Autor, como “pai”, gosta igualmente de todos. O leitor é que tem suas preferências.
Livros publicados: 29 títulos e 35 edições
A lista também está organizada, com as datas e editoras, em Obras.
- Anatomia funcional da valva mitral; 73 p. (Tese de Doutoramento). Universidade de São Paulo, edição reduzida, 1956.
- Lesões traumáticas das artérias; 81 p. (Tese de Livre-Docência). Universidade de São Paulo, edição reduzida, 1965.
- Guia para o residente de cirurgia; coautor Alípio Corrêa Netto e colaboradores. Johnson & Johnson, 1966, 160 p.
- Metodização da pesquisa científica; coautor Alípio Corrêa Netto e colaboradores. Edigraf e EDUSP, 1970, 248 p.
- Propedêutica vascular; São Paulo, Ed. Sarvier, 1974, 238 p.
- 2ª ed. ampliada, Sarvier, 1988, 239 p.
- Progressos na cirurgia; Mello, J. B.; Moraes, I. N. & Nahas, P. e colaboradores. Farmion, Hospital Jaraguá, São Paulo, 1979, 388 p.
- Capítulos de cirurgia; Mello, J. B.; Moraes, I. N. & Nahas, P. e colaboradores. Abbott, Hospital Jaraguá, São Paulo, 1980, 427 p.
- Redação de memorial; pré-apresentação do livro em quatro partes, como números da revista Odontólogo Moderno, Rio de Janeiro:
- 1ª parte: Conceito de Memorial e de Currículo, vol. VI nº 10, out/1979;
- 2ª parte: Técnica de Redigir, vol. VI nº 11, nov/1979;
- 3ª parte: Apresentação em vários volumes, vol. VI nº 12, dez/1979;
- 4ª parte: Arguição do Memorial, vol. VII nº 1, jan/1980.
- Elaboração da pesquisa científica; Rio de Janeiro, Ed. Publicações Médicas, 1978, 137 p.
- 2ª edição atualizada, São Paulo, Ed. Álamo, 1985, 240 p.
- 3ª edição ampliada, São Paulo, Atheneu Editora, 1990, 243 p.
- Higiene do atleta; São Paulo, Cepeusp, 1982, 25 p.
- Atividade física e circulação periférica; São Paulo, Cepeusp, 1985, 28 p.
- Perfil da universidade; São Paulo, Pioneira e Edusp, 1986, 131 p.
- Problemática da saúde; São Paulo, Ed. Santos, 1987, 151 p.
- Enciclopédia de cirurgia vascular; São Paulo, Ed. Santos, 1987, 433 p.
- O especialista e o clínico geral; São Paulo, Ed. Roca, 1997, 170 p.
- Erro médico; São Paulo, Santos-Maltese, 1990, 136 p.
- 2ª ed. ampliada, São Paulo, Santos-Maltese, 1991, 192 p.
- Erro médico e a lei; São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais, 1995, 444 p.
- 2ª ed. ampliada, São Paulo, Editora Lejus, 1998, 608 p.
- Erro médico e a justiça; São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais, 2003, 732 p.
- Residente de cirurgia; coautores Mello, J. B.; Nahas, P. e outros. São Paulo, Roca, 1991, participação de 194 colaboradores, 3.000 p. Prêmio Jabuti 1993, melhor livro de Ciências Naturais e Medicina.
- Estratégia do diagnóstico vascular; São Paulo, Atheneu, 1991, 396 p.
- Atlas da aterosclerose; São Paulo, LIM-63 do Hospital das Clínicas e Câmara Brasileira de Difusão Cultural, 1991, 75 p.
- Atlas da aterosclerose (edição ampliada); Lisboa, Portugal, Universitária Editora, 1997, 124 p.
- O mal da saúde no Brasil; Moraes, I. N. e outros. São Paulo, Ed. Maitiry, 1995, 176 p.
- Formação do médico; São Paulo, Ed. Roca, 1997, 55 p.
- Sexologia; São Paulo, Editora Lejus, 1998, 319 p.
- Longevidade; São Paulo, Ed. Roca, 2004, 160 p.
- Conforto da automedicação; São Paulo, Ed. Roca, 2004, 142 p.
- Tratado de clínica cirúrgica; São Paulo, Ed. Roca, 2005, 2 vol., 2.324 p. Participação de 335 colaboradores.
- Metodologia da pesquisa científica; coautor Alexandre C. Moraes Amato. Ed. Roca (no prelo).
Receita de Saúde, série na TV-2 Cultura
Elaborou e dirigiu, em 1984, o programa Receita de Saúde, com quarenta e um temas de uma hora cada, que a TV-2 Cultura levou ao ar três vezes por semana, em três horários, e que repetiu durante três anos. A TV Educativa do MEC reproduziu esse programa em cadeia nacional durante vários anos seguidos. Cópia completa dessa série em vídeo encontra-se na videoteca da Associação Paulista de Medicina, à disposição dos interessados. Os sindicatos requisitam frequentemente!
Publiquei ainda
- Capítulos em livros: 185
- Artigos em Carisma: 98
- Artigos em Cultura & Saúde: 48
- Suplemento Cultural APM: 30
- Artigos em revistas médicas (nacionais e estrangeiras): 121
- Artigos em jornais (O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Jornal da USP e outros): 210
Revista virtual
Revista Cultura & Saúde: www.culturaesaude.med.br
Filmes
- Aortic Blood Flow: filme colorido de 8 mm, 7 minutos, feito no Department of Surgery of the Northwestern University, Chicago, Illinois, USA, 1966, em colaboração com Édison Dias Teixeira e John J. Bergan.
- Transplante Renal: filme colorido, sonoro, 16 mm, 22 minutos, patrocinado pela Sandoz. Direção científica de Irany Novah Moraes e direção cinematográfica de B. J. Duarte, 1968. Edição em VT, 1988. Apresentado no 4th International Congress of Nephrology, em Estocolmo, Suécia, 1969.
- Via Láctea (aleitamento materno): filme Super 8, colorido, sonoro, 1980. Cópia VT-NTSC, 1988.
- Mãos: filme GM, duração 5 minutos, áudio em português. Cópia VHS-NTSC, 1987, Helicon.
- Hipertensão renovascular por nefroptose (tratamento cirúrgico): filme colorido, sonoro, 32 minutos, patrocinado pela Sandoz do Brasil, 1974. Cópia VT VHS-NTSC, 20 minutos, 1988. Apresentado no IX Congresso Internacional de Angiologia, em Florença, Itália, em 1974.
- Vasculopatia funcional: filme VHS-NTSC, colorido, duração 8 minutos, Helicon, 1990.
Atividade docente, formação de profissionais e atividade assistencial da medicina: qual o senhor identifica-se mais?
Passei toda minha vida de cirurgião vascular preocupado em difundir conhecimentos científicos para a classe médica e conhecimentos médicos para a população leiga.
Transplante de rim: o primeiro em hospital particular no Brasil, 1968
Organizei em 1968, com o nefrologista Roland Véras Saldanha, um Grupo de Transplante no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, com a anuência do Comendador Abílio Brenha Fontoura, na época presidente da Diretoria Administrativa. O grupo era constituído de três equipes, a saber:
- Equipe de Cirurgia: Irany Novah Moraes, J. J. Gama Rodrigues, Masayuki Okumura, Oswaldo Ubriaco Lopes, Pedro Nahas, Bonno Van Bellen, João Gabriel W. Zorn e Jabel Camargo Simões.
- Equipe Clínica: Roland Véras Saldanha, Thomás Ribeiro de Almeida, Anita Leme da Rocha, Rildo Véras, Maria Margarida Galvão e Francisco Antonacio (tipagem de tecido).
- Equipe Urológica: Samir Seraphim, Francisco Barbosa de Barros e Guilherme Cleber Marconi.
Foram feitos 12 transplantes; o tempo de sobrevida, para a época, foi muito bom, pois a maior parte variou de 2 a 6 anos.
Obtínhamos soro antilinfocitário graças à linfa que mandávamos para o Dr. Eijsvoogel, na Holanda. A coleta de linfa resultou em tal experiência que motivou o Dr. Bonno Van Bellen a elaborar sua tese de Doutoramento na Faculdade de Medicina da USP. O programa foi interrompido pelo fato de o INPS achar que o doador, não sendo doente, não poderia ser internado (nítido caso de miopia social).
A história completa está em Primeiro transplante renal em hospital privado no Brasil.
Bolsistas do exterior
Os seguintes médicos e estudantes de medicina fizeram, sob minha responsabilidade, estágios no Hospital Jaraguá:
- Henrique Vera-Cruz, República de Cabo Verde, dez/83 a mar/86
- Paul Döpfner, Alemanha Federal, 1/out/84 a 21/jan/85; 22/jan/85 a 19/maio/85
- Inês Klaudius, Alemanha Federal, 22/jul/85 a 21/set/85
- Walter Siegbert, Alemanha Federal, 22/jul/85 a 21/set/85
- Werner Secbauer, Alemanha Federal, 10/jul/86 a 03/out/86
- Petra Platen, Alemanha Federal, 12/ago/85 a 20/set/85
- Agnes M. Schaper, Alemanha Federal, 1/out/85 a 30/set/86
- Kerstin Werner, Alemanha Federal, mar/87 a mar/88
- Paul Döpfner, Alemanha Federal, 03/dez/85 a 20/mai/86
- Manuela Gerlach, Alemanha Federal, 3/dez/85 a 2/fev/86
- Kirsten Owen, Alemanha Federal, 1/set/87 a 30/out/87
- Weener Seibaner, Alemanha Federal, 1/set/87 a 30/out/87
- Kristina Kathge, Alemanha Federal, 1/jan/88 a 1/mar/88
- Doris Venneman, Alemanha Federal, 1/nov/87 a 31/dez/87
- Glasmeyer Peter, Alemanha Federal, 1/nov/87 a 31/dez/87
- Annett Friedrich, Alemanha Federal, mai/88 a dez/88
Missão em Brasília
Convidado pela Universidade de Brasília, fiz, em 1966 e 1967, o Planejamento Operacional da Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho para seu aproveitamento na UnB como Hospital-Escola.
Preliminarmente constituí uma equipe, com os seguintes participantes: Nicolino Barbério †, J. J. Gama Rodrigues, Angelita Habr-Gama, Danilo Acquaroni †, Fernando Leitão, Antônio Lopes, Jorge Miguel Psillakis, Marcelo de Almeida Toledo †, Josué A. Oliveira, Sérgio Novah Moraes †, Milton Cardoso Siqueira, Altamiro Ribeiro Dias, Cecília Paula Leite Galvão, L. C. M. França e José Sylvio Cimino †.
Mensalmente, eu e um ou dois dos integrantes da equipe passávamos uma semana em Brasília e, ao final do trabalho, a equipe se reuniu no Distrito Federal para elaboração do relatório final. O Dr. Psillakis passou mais tempo comigo lá e desempenhou um papel relevante de secretário executivo do grupo.
O trabalho final, entregue ao Reitor da UnB, Prof. Laerte Ramos de Carvalho, tinha 249 páginas e o seguinte sumário:
- Introdução
- Hospital-Escola: sua ideologia (Evolução do tratamento médico…)
- Legislação (Convênio…)
- Administração maior (Edificações e Instalações…)
- Administração menor (Protocolo, Contabilidade…)
- Corpo clínico (Regulamento)
- Assistência médica (Ambulatório, Relações Interdepartamentais…)
- Assistência médica auxiliar (Anestesia, Banco de Sangue…)
- Assistência técnica auxiliar (Farmácia, Serviço Social…)
- Educação médica (Internato e Residência)
- Educação técnica complementar (Cursos, Voluntárias)
Irany, Salvador, Alexandre: três gerações na história da cirurgia vascular. Qual a diferença entre estas três épocas?
Salvador e Alexandre seguem, com ideias próprias, a mesma trilha que eu iniciei: estudam muito e têm uma ética ilibada. Deles eu muito me orgulho!
A diferença de épocas é marcante; há grande imbricamento entre elas.
- 1950: época da simpatectomia, carbogenioterapia, exercícios de Bürger, amputações, ligadura de aneurisma, safenectomia, bota de Unna.
- 1960: década do enxerto homógeno de artéria de cadáver e do tubo sintético de Dacron e Teflon.
- 1970: a radiologia inicia sua incursão na cirurgia vascular.
- 1980: o ultrassom se impõe e a ressonância nuclear magnética (RNM) aparece.
- 1990: a RNM avança e se impõe com muito melhor resolução.
- 2000: a cirurgia endovascular inicia e já está se impondo.
Qual grande legado deixado pelo senhor a todas as gerações que formou?
Não sei se é grande, mas ensinei uma geração a elaborar Dissertação de Mestrado, Tese de Doutoramento e até de Livre-Docência. Mantive um curso de Metodologia Científica durante 14 anos na Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os alunos de todas as Disciplinas de Pós-Graduação eram encaminhados pelos seus Orientadores a fazer essa Disciplina. Recebi alunos de toda a USP e de fora dela. Houve anos em que o número de candidatos foi tão grande que tornou-se necessário desdobrar a turma. Em curso concentrado, de uma semana, em tempo integral, a disciplina foi ministrada na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, dois anos seguidos. Foi reproduzida, por dois anos, na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. Acredito que, ao todo, 400 jovens fizeram essa Disciplina.
Qual a esperança e a perspectiva da cirurgia vascular e da angiologia, na sua visão?
O futuro da especialidade é promissor. Entretanto, será muito diferente do que é atualmente. Para um ensaio de futurologia tem-se que depositar esperança na tecnologia, farmacologia, genética, nanotecnologia e computador.
- Tecnologia: desenvolverá linhas de pesquisa que levarão ao entendimento, cada vez maior, dos mecanismos fisiológicos e patológicos, bem como ao aprimoramento dos aparelhos, com resolução ainda melhor, e a novos instrumentos que analisem o tecido sob outros diferentes aspectos. Grande esperança pode ser depositada nas incubadoras de empresas com bases tecnológicas, cujo objetivo claro é pesquisar para resolver problemas da comunidade.
- Farmacologia: desenvolverá muitos medicamentos novos para resolver problemas antigos.
- Nanotecnologia: em uma década teremos nanopartículas com núcleo enzimático que “procurará” o trombo e, uma vez nele instalado, o dissolverá. A criação de neurônios artificiais já é uma realidade nos laboratórios de microeletrônica da Escola Politécnica da USP.
- Genética: o grande desenvolvimento dos estudos do genoma, das células-tronco a partir da cultura de células e de tecidos, promete a substituição de tecidos e futuramente até de órgãos.
- Computador: todo esse progresso esperado vai depender do suporte dado pela informática. Não se esqueçam do alerta de A. Toffler: o futuro é amanhã, de manhã.
Um alerta aos jovens médicos
Alerto os jovens médicos que tomem atenção para três pontos fundamentais que trato a seguir:
- A velocidade da informação: o progresso do mundo globalizado gera tal quantidade de conhecimento que torna cada vez menor o tempo de vida médio da verdade científica; assim, há de se aprender a raciocinar com dados em evolução.
- Como não se pode ensinar “bom senso”, acredito que o crescente número de reclamações de erro médico na Justiça sensibilize o jovem a ter prudência e não cair nas armadilhas que o destino coloca no caminho do exercício profissional. Só fazer o que sabe e não improvisar!
- A competência e a ética serão a garantia do êxito profissional.