O médico generalista
Prefácio que o Prof. Irany escreveu para apresentar o curso Asclépios – Médico Generalista. Transcrito de um documento guardado pela família, com data de dezembro de 2003. O mesmo tema está em seu livro O especialista e o clínico geral (Roca, 1997).
O grande progresso da medicina moderna tem estarrecido a sociedade por gerar esperança de longevidade e de melhor qualidade de vida. É inegável o valor da especialização do médico nesse contexto. Entretanto, esta trouxe embutida, também, o germe da regressão intelectual e espiritual. Um dos malefícios para o qual ela tem contribuído, é certamente o desaparecimento do antigo clínico geral que alguns conheceram, outros ouviram falar e todos, nos dias de hoje, sentem muita falta. Por outro lado, o sistema educacional brasileiro, planejado sob a égide da demagogia, produz anualmente mais de dez mil médicos e dispõe apenas de quatro mil vagas nos Programas de Residência Médica (treinamento tutelado no trabalho). Estes aliás, funcionam bem, estão suprindo falhas do ensino de graduação, chegando mesmo a representar um verdadeiro “supletivo” das escolas inadimplentes. Entretanto, como o mercado de trabalho tem capacidade para absorver cinco mil médicos, os mil excedentes, comprovadamente despreparados, conseguem trabalho. Assim, não tendo “especialização”, apresentam-se como “clínicos gerais”, por exclusão e não por opção. Esses, em última análise, são os maiores responsáveis pela imagem denegrida da classe. Por saberem pouca medicina, pedem exames em exagero, sem critério e chegam mesmo até desconhecer sua interpretação. Assim, encarecem a assistência médica. Sem diagnóstico correto prescrevem inadequadamente, aumentando o tempo da doença e conseqüentemente agravando seu custo social, são, ainda, os que mais freqüentemente cometem erro médico. Ressalte-se que esses jovens, também, são vítimas do “sistema” que não os preparou adequadamente. O condenável hábito de generalizar os fatos negativos denigre a imagem de todos os demais médicos que, devotos, garantem, apesar das dificuldades, a saúde da população.
Há uma solução imediata: fomentar a formação do médico generalista! Cabe às entidades médicas, que devem zelar pela cultura médica, a missão de envidar esforços com esse objetivo. Uma das maneiras é, sem dúvida, “em mutirão”, ministrar cursos ensinando a parcela crítica de conhecimentos, de cada especialidade, que todo médico não poderá ignorar. Tal sugestão é factível e terá resposta imediata com inegável melhoria do atual Sistema de Saúde, mas é mister que o Governo e entidades que empregam médicos valorizem esse especialista cuidando também do reconhecimento pecuniário de seu trabalho.
O curso Asclépios – Médico Generalista, que tenho a satisfação de apresentar é um esforço em prol do jovem, em particular, e da classe, em geral, dos diversos rincões do país, para todo médico aprender:
- a raciocinar com dados em evolução;
- o que deve saber, com ênfase para;
- o que não pode ignorar e, objetivamente;
- como proceder diante de um caso.
Se todos os médicos se conscientizarem de seu papel nessa problemática e cerrarem fileira nesse desiderato – quem sabe ensina e quem não sabe aprende – para o futuro, pensando em 2010, ou seja “amanhã de manhã”, as Universidades já deverão ter assumido essa responsabilidade, e o Governo ter recuperado ou fechado as escolas inadimplentes o êxito está garantido.
A imagem do médico será resgatada, o doente beneficiado e a Nação com saúde será mais forte.
Prof. Dr. Irany Novah Moraes