Armadilhas do destino
Texto guardado pela família, com data de 28 de dezembro de 2006 e a anotação “Vascular In 2007”, que indica ter sido preparado para a Revista Vascular IN. O trecho sobre o erro imaginário retoma o artigo Erro Imaginário, publicado na revista Cultura & Saúde. O tema é o mesmo de seu livro Erro médico e a justiça (2003).
O destino coloca armadilhas na estrada que o médico percorre durante sua vida profissional!
Para encontrarmos as armadilhas vamos procurar na estrada da vida profissional do médico os pontos críticos onde elas podem estar camufladas. Assim, onze itens são tratados para analisá-los a saber:
- Limitação da Medicina;
- Contrato de Trabalho;
- Confiança no Médico;
- Lei do Consumidor;
- Relação Médico Paciente;
- Perigo da Generalização;
- Conceito de Erro Médico;
- Equivoquismos graves;
- Erro Imaginário;
- Tecnologia Moderna e
- Considerações Finais.
1. Limitação da medicina
O fulcro da questão geradora de toda a problemática do erro médico está unicamente na diferença dos objetivos do paciente e o do médico (Quadro 1). O paciente espera sarar enquanto o médico somente pode cuidar e só eventualmente curá-lo. Essa diferença decorre unicamente pelo fato da medicina ter limitações.
Quadro 1. Fulcro da questão: objetivos diferentes do paciente e do médico
| Objetivo do paciente | Objetivo do médico |
|---|---|
| Sarar | Cuidar, e se possível curar |
Paciente não aceita a limitação da medicina.
Erro médico é tema da moda. Todos devem se inteirar do assunto para não se iludir com as notícias espalhafatosas que aparecem na mídia.
Sobre essa matéria, duas opiniões não podem deixar de ser ouvidas: a do médico e a do advogado. A ambos cabe em cada caso concreto, quando a questão está na Justiça a busca da verdade. Assim sendo, têm obrigação de conhecer a matéria em profundidade, sabendo analisá-la por diversas vertentes, para entender o assunto em sua essência.
Entretanto, tudo será em vão se não se der a mais ampla divulgação dessa matéria, para que a sociedade reflita, tenha opinião própria e, simplesmente não se deixe iludir pela emoção da vítima sofredora e divulgada com alarde.
Nesse ponto a responsabilidade maior ainda, é do jornalista que deve saber o que está divulgando. Cabe a ele entender corretamente os conceitos para não interpretá-los equivocadamente, causando, verdadeira condenação moral e civil ao médico.
2. Contrato de trabalho
O serviço prestado pelo médico é regido por contrato especial de meio e não por contrato de fim, como são todos os demais, que garantem a obrigação de resultado como v.g. o bilhete aéreo que estabelece a obrigação da companhia transportar o passageiro de ponto a ponto. Tudo que ocorrer do embarque ao desembarque é por conta e responsabilidade da companhia aérea.
Diferentemente do contrato especial de meio, que exige do médico cuidar do paciente, oferecendo-lhe o melhor que a medicina dispõe, considerando o local e as circunstâncias e não exige resultado, não obriga curar o doente. Esse contrato é implícito, não precisa ser escrito, basta o doente procurar o médico e este atendê-lo que está firmado. Assim, ele existe, mesmo ao atender um acidentado em via pública. Médico e paciente não se conhecem, mas a simples atitude de socorrer a vítima fica estabelecida a obrigação de atendê-la adequadamente naquelas circunstâncias.
Esse trabalho, altamente especializado está sujeito ao aparecimento de intercorrências que elevam o risco e exigem grande conhecimento técnico para, prontamente resolvê-lo, lembrando sempre da grande responsabilidade envolvida, pois seus procedimentos quando inadequados, podem por em jogo a vida, bem como o futuro do paciente. Muitos desses acontecimentos podem ocorrer subitamente, exigindo medidas de urgência e alarmantes. Paciente e familiares acompanham todos os episódios, muitas vezes, sem saber o que acontece. Nem sempre há tempo hábil para explicações minuciosas, e outras vezes o próprio médico não pode prever como o organismo vai reagir, pois debilitado pela doença, modificado pelo tratamento, as vezes, está respondendo de modo diferente do esperado, e não há condições de interpretar o que está acontecendo. Em tais circunstâncias, entende-se, o quanto o choque emocional pode abalar a confiança da família no médico.
3. Confiança no médico
O complexo mecanismo do relacionamento entre as pessoas é profundamente influenciado pela emoção. Esta interfere, o mais das vezes, dificultando o entendimento. Uma visão imaginada por William James, dá uma idéia dos motivos pelos quais a confiança pode ser abalada. Ele afirma que, quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis em presença: cada uma como se vê a si mesma, como a outra a vê, bem como realmente ela é.
Sendo assim, é muito fácil imaginar que os pontos conflitantes sejam mais freqüentes do que os de entendimento. É sempre mais provável que no relacionamento médico-paciente, em situações difíceis a confiança seja posta em dúvida e, conseqüentemente, abalada. Nos momentos difíceis dos cuidados médicos, se o próprio paciente ou seus familiares não acompanharem pari passo os acontecimentos, entendendo o que se passa, dificilmente aceitarão o resultado, se não for, o por eles, esperado. O conhecimento dessa problemática pelo prisma apresentado, poderá ajudar o médico, lembrar que tudo precisa ser explicado ao doente enfatizando que a medicina tem grandes limitações. Quem sabe, reflexões nessa linha de pensamento aliviarão a família sofredora nos momentos difíceis, gerando assim capacidade de se aceitar a realidade. Compreende-se a possibilidade dos pacientes e familiares aflitos a quem nada foi explicado terem queixas que, facilmente levem a reclamações seja no jornal, no CRM ou até na Justiça.
4. Lei do consumidor
A Lei do Consumidor, despertou a consciência da cidadania do brasileiro e para resgatar os longos anos perdidos, foi estimulada a reclamação que tem eco nos Juizados Especiais de Pequenas Causas, Delegacias Especializadas do Consumidor e Procon. Na área da saúde, a estratégia de estimular a reclamação trouxe efeitos secundários indesejáveis com grande prejuízo para o doente, pois gerou sua desconfiança no médico.
5. Relação médico-paciente
Todos sabem que medicina é ciência e arte. A primeira parte – ciência – é fácil de entender, principalmente hoje que a tecnologia diariamente apresenta conquistas maravilhosas! Entretanto no que diz respeito a segunda parte – arte – representada pela relação médico-paciente é garantida pela confiança do paciente em seu médico que deste espera a cura mas desde que bem explicados os fatos e sua evolução e sentindo a devoção no atendimento e bom senso no procedimento pode entender a limitação da medicina e aceitá-la.
6. Perigo na generalização
A imprensa tem posto o médico na berlinda. Todas as manifestações de descontentamento com o atual sistema de saúde e também as de inconformismo com os limites da medicina têm sido propaladas como sendo erro médico. O médico é impiedosamente pré-julgado, a culpa sempre lhe é imputada, com a agravante de que, uma vez apurados os fatos, desaparece o interesse pela verdade. Jamais há desagravo para o médico vítima da notícia equivocadamente alardeada como sendo seu erro.
Como a natureza humana tem tendência em generalizar, o que foi a priori entendido como erro é tido como sendo de todos os médicos e assim, a imagem da classe fica denegrida!
A dedicação de muitos, gerando grande produção científica que contribui para o bem coletivo, assim como, a assistência a milhões de pacientes num trabalho, de devoção sacerdotal, feito por uma avalanche de médicos, são facilmente olvidadas quando uma notícia ataca a reputação de um deles. Não escapa dessa generalização nem mesmo aquele que de madrugada aliviou a dor do próprio indivíduo que pensa dessa maneira. Devemos entender, sem porém aceitar, esse comportamento como sendo da natureza humana.
7. Conceito de erro médico
A Justiça é extremamente técnica e bem clara ao julgar Erro Médico. Exige três pré-requisitos, a saber (Quadro 2): dano ao paciente, procedimento médico e nexo causal. O procedimento médico é a causa do referido dano. Não havendo qualquer uma dessas três condições, não existe erro médico.
Quadro 2. Pré-requisitos
| Pré-requisitos |
|---|
| Dano ao paciente |
| Procedimento médico |
| Nexo causal |
Comprovada a existência de pelo menos um desses três pré-requisitos, a Justiça passa então a avaliar o comportamento do médico para comprovar uma ou mais das três condições (Quadro 3), apresentadas a seguir: 1- não fez o que deveria ter feito e condena por negligência; 2- fez o que não devia ter feito – imprudência, e 3- fez errado – imperícia.
Esta última condição ocorre por incompetência. Assim, deve ficar bem claro o grande perigo da ignorância. Cabe lembrar nessa altura que a improvisação é um perigo, fazendo o que não se sabe, certamente fará errado.
Quadro 3. Comportamento do médico
| Comportamento do médico | Comparação | |
|---|---|---|
| Negligência | Não fez o que devia | Não colocou combustível para viajar |
| Imprudência | Fez o que não devia | Atravessou sinal fechado |
| Imperícia | Fez errado (não sabia) | Dirigiu sem habilitação |
Isto posto, é oportuno tratar de situações que podem parecer erro e, que na realidade não são. A mídia acolhendo a reclamação emocionada de um familiar diante do malogro de um resultado quando ele esperava a cura, divulga o caso como sendo erro médico, sem averiguar a realidade.
8. Equivoquismos graves
Antes de prosseguir na matéria é oportuno lembrar dois problemas que muita vez os jornais apresentam ao público como sendo equivocadamente erro médico (Quadro 4). 1- Caso que não é atribuição exclusiva do médico – a quebra de sigilo – e nem mesmo de procedimento peculiar a atividade médica mas é criminosa. 2- Outro caso é do médico que intencionalmente deseja prejudicar o paciente é o Erro doloso – é crime pois desejou causar o dano.
Quadro 4. Equivoquismo grave
| Equivoquismo grave | |
|---|---|
| Quebra de sigilo | Devassar dados do paciente |
| Erro doloso (crime) | Dano intencional |
Embora não se trate de erro médico pois o problema afeta não só a todas as profissões como também a todas as atividades. Trata-se do fato de devassar dados do paciente ou da pessoa para quem foi prestado qualquer serviço. Nesse ponto cabe lembrar Santo Agostinho que dizia: aquilo que soube pela confissão, sei menos do que o que nunca soube.
Dentro das variações cabe o dano intencional (erro doloso) que é crime.
9. Erro imaginário
Chamo de Erro Imaginário (Quadro 5) a um conjunto de situações que desagradam o doente ou melhor, o paciente e seus familiares que ocorrem dentro da evolução de um procedimento médico.
Quadro 5. Erro imaginário
| Erro imaginário | |
|---|---|
| 1. Inconformismo | Limitação da medicina |
| 2. Iatrogenia | Mutilação (eletiva ou de urgência) |
| 3. Acidente (de percurso no procedimento) | Risco profissional |
| 4. Complicação | Intercorrência inesperada |
| 5. Variações anatômicas | Respostas diferentes das convencionais |
| 6. Anomalias anatômicas | Respostas paradoxais |
| 7. Falhas técnicas | Falta de respostas do organismo |
| 8. Erro escusável ou erro profissional | Protegido pelo contrato de meio |
1. Inconformismo do paciente ou de seus familiares com o resultado esperado do tratamento, é sem dúvida, decorrente de uma série de fatores. Alguns podem ser destacados, mas, todos encontram na resposta emocional o fator potencializador do seu problema. É natural que, diante da morte de um ente querido, do malogro de um tratamento, da amputação de um membro gangrenado, cuja evolução natural poderia levar o paciente à morte, haja uma crise emocional do paciente ou de seus familiares, que perturbe a correta interpretação dos fatos. Há casos em que o médico faz tudo para salvar o paciente e, como nem sempre é possível, pois a medicina tem limitações, a família emocionada não aceitando a realidade, muitas vezes, procura lançar a culpa no médico ou até mesmo no hospital. A divulgação de casos como sendo erro médico sem rigoroso critério tem conseqüências maléficas para o médico e para as instituições, mas o mal maior ainda é para o doente. O primeiro efeito negativo que ele determina é o medo que incute na população a todo procedimento necessário para assistência à saúde. O segundo malefício é a incredulidade do paciente na eficácia dos tratamentos. O terceiro, a meu ver o mais grave, é o estremecimento da relação médico-paciente, pelo abalo da confiança do paciente em seu médico. Todos sabem que boa parte da eficiência de um tratamento está na tranqüilidade que a palavra do médico produz no paciente e em sua família, graças a essa confiança. Até mesmo as boas notícias, de significativos progressos, de êxitos parciais em pesquisas avançadas e de tecnologia muito refinada, quando divulgadas de maneira escandalosa e bombástica são perniciosas, pois dão a impressão, ao menos avisado, de que é fato consumado e de uso corrente, algo que ainda está em fase experimental. Mas o malefício desse procedimento está em desenvolver na população, um exagerado grau de expectativa para soluções de problemas. Muita ocorrência imputada como erro médico nada mais é do que a evolução natural da doença.
2. Iatrogenia é palavra composta, vem do grego: iatrós (médico) + genos (geração) + ia. Assim, trata-se de expressão usada para indicar o que é causado pelo médico, mas, por extensão, por todos os integrantes do serviço de saúde que participam direta ou indiretamente do procedimento médico. É conveniente ficar bem claro que se entende também como iatrogênica toda operação mutiladora, aquela que para tratar a doença retira o segmento doente como v.g. amputação de membro gangrenado; pneumectomia e gastrectomia por neoplasia. Registre-se aqui o fato do paciente se perturbar mais com pequenas mutilações visíveis do que retiradas de órgãos inteiros mas que ninguém vê. O olhar constante das pessoas causa grande constrangimento.
3. Acidente – É importante assinalar que, nessa matéria, devem distinguir-se acidente de complicação, dois conceitos relevantes na problemática dos limites de responsabilidade médica. Trata-se de uma intercorrência fortuita, mais inesperada do que imprevisível, que pode ocorrer tanto no procedimento diagnóstico como no terapêutico. A experiência tem revelado que, na maioria dos casos, as questões ficam centralizadas na dificuldade de compreensão do que seja acidente em medicina. Assim vejamos: acidente é a ocorrência não esperada, mas previsível. Pode ser um fato traumático ou fenômeno mórbido que ocorre no indivíduo sadio ou doente. Acidente cirúrgico é, por exemplo, uma secção indesejada de uma artéria durante o ato cirúrgico. Neste ponto podem ser lembrados os casos decorrentes de acidentes anestésicos, radiológicos e cirúrgicos. Na medicina, como no trânsito, não se espera que o acidente vá ocorrer, mas se admite que ocorra. Há operações que põem em alto risco certas estruturas que, uma vez lesadas, podem desencadear seqüelas, algumas delas deformantes ou produzindo disfunções. Assim, tumores da glândula parótida podem envolver o nervo facial e, por mais cuidado que o exímio cirurgião tenha, ele pode ser lesado. Tratando-se de simples manipulação, a seqüela pode ser temporária; entretanto, é possível que traumatismos maiores causem seqüelas permanentes, resultando numa assimetria facial pela retração contralateral. Implicam também acidentes os casos que se seguem: Em operação em local delicado, embora com toda habilidade e cuidado do cirurgião, a fragilidade do tecido poderá levá-lo a romper-se e inviabilizar aquele ato. Uma sutura em artéria extremamente friável, feita de acordo com a mais correta técnica e a maior habilidade, se os pontos se rompem, inviabilizam também aquele ato. Outro exemplo é o envolvimento de um vaso por um tumor maligno que se quer extirpar: a adesão entre ambos é tal, que para retirar o tumor, o cirurgião lesa a artéria. Alguns destes casos permitem uma reparação imediata da intercorrência. Tais fatos ocorrem com maior freqüência do que se possa imaginar, mas a elevada capacidade do cirurgião supera a dificuldade e se rotula a operação como operação difícil.
Lesões acidentais do nervo recorrente podem ocorrer nas tireoidectomias, com perturbação definitiva da fala. Há de se considerar a profissão do paciente e imaginar o transtorno que lhe causa na eventualidade de ser cantor ou professor. Nas operações do pescoço ainda podem ser lembradas as lesões acidentais do nervo frênico, com o conseqüente rebaixamento da hemicúpula diafragmática com possíveis perturbações respiratórias. Compreende-se que a modernidade esteja trazendo a cada momento novas oportunidades diagnósticas, bem como terapêuticas, que tragam embutidas também outras chances de acidentes. Essas, por serem ainda pouco conhecidas, se tornam menos previsíveis, o que em nada diminui a probabilidade de ocorrência. Para exemplificar esse fato, e, assim, torná-lo melhor compreendido, basta lembrar o tratamento dos hemangiomas pela embolização. Trata-se de técnica imaginada em 1980 que, pela sua recente utilização na prática, faz com que poucos especialistas tenham grande experiência, o que não permite que haja grandes estatísticas para se estimar em números os acidentes esperados nem as complicações. A resposta pode ser maior que a desejada, às vezes pelo simples espasmo arterial, desencadeando isquemia, também, das áreas adjacentes, o que pode causar seqüelas indesejáveis, tornando o resultado final precário. É difícil para o paciente entender o malogro desse processo como acidente, tendendo, geralmente, a considerá-lo como um erro médico.
Esses exemplos foram aqui referidos para lembrar que tais lesões são causadas pelo médico a partir de uma escolha feita entre riscos e benefícios. O paciente, nas situações especiais diante de um diagnóstico, tem que saber que existem estruturas nobres que, às vezes, por mais cautela que se tenha, identificando-as e afastando-as com muito cuidado, ainda assim não suportam o leve traumatismo de um afastador delicadíssimo. Conhecendo claramente tais riscos, cabe a ele optar entre os riscos de não se tratar, deixando que a doença progrida na sua evolução natural, e a mutilação ou a disfunção possível, mas não esperada, que pode resultar do tratamento. Nos casos em que a mutilação é o tratamento, a situação já é outra.
4. Complicações – É o aparecimento de uma nova condição mórbida no decorrer de uma doença devida ou não à mesma causa. É freqüente uma doença crônica ter, na evolução natural, surtos de agudização, precisamente durante o tratamento. Eles ocorreriam de qualquer maneira, com ou sem tratamento; apenas por infelicidade, sobreviera no decorrer deste. Pode-se exemplificar com um paciente portador de arteriosclerose que, no decorrer do tratamento de uma gangrena, falece com infarto do miocárdio, no dia da alta hospitalar. A doença existia, era sistêmica. Ele superou a amputação, mas a artéria coronária ocluiu. É oportuno citar aqui, ainda, a evisceração, complicação que ocorre nos doentes malnutridos no pós-operatório de uma cirurgia abdominal. A sutura rompe-se e as vísceras ficam expostas. Lembre-se que malnutrido não é só aquele que passa fome, mas também o que come errado ou faz regimes sem adequada orientação médica. Outros exemplos, talvez até mesmo mais drásticos do que estes, podem ser lembrados para ilustrar na essência esse aspecto do problema. É o caso da radioterapia após operação de câncer e, depois dela, a quimioterapia que, para matar as células cancerígenas, ataca profundamente o doente, com seqüelas, prejudicando sobremaneira a qualidade de vida do paciente.
Complicações de difícil entendimento para o leigo – A evolução natural de algumas doenças podem apresentar intercorrências difíceis de serem compreendidas pelo leigo. Assim vejamos o que ocorre, não raramente, na pediatria. Crianças com quadro clínico diarréico agudo podem apresentar, no decorrer de sua evolução, isquemia de braço ou de perna, em razão de septicemia com embolia séptica ocluindo artérias, levando à isquemia e até mesmo à gangrena da extremidade. Este fato causa tal impacto na família que o inconformismo pode levar a reclamações judiciárias pleiteando indenizações para reparação de imaginário erro médico.
A família, na reconstituição dos fatos para a formulação da queixa, lembra pequenas intercorrências plausíveis de acontecer no decorrer do tratamento de casos graves. Assim, aparece o braço que inchou na aplicação do soro ou quando foi contido na grade do berço da criança. Esses fatos causam estranheza para a mãe e os familiares, porque ocorrem com um ente querido, num momento de grande aflição.
Os médicos e particularmente o pediatra, bem como o cirurgião vascular, que cuidam desses pacientes entendem o que está ocorrendo, como e porque. Entretanto, devem ser ressaltadas outras ocorrências de responsabilidade da família. A mãe que não quis ou não pôde amamentar, o desmame que foi precoce e a alimentação artificial que não foi seguida corretamente costumam ser fatores predisponentes da doença diarréica aguda.
5. Variações anatômicas – Estas de menores dimensões que as anteriores padecem da mesma dificuldade mas em regiões onde ainda a tecnologia não chegou à modernidade, continua o problema.
6. Anomalias anatômicas – A anomalia é a malformação ou deformidade congênita, caracterizada por irregularidade do organismo, condição esta que torna o indivíduo diferente dos demais. É indicativa de um desvio do normal. Nos graus mais avançados se fala em deformidade e, progressivamente, em malformação ou monstruosidade; difere da variação pelo fato de esta não causar alterações funcionais que ocorrem na eventualidade anterior.
Respostas paradoxais podem ocorrer em casos nos quais os exames auxiliares geralmente de imagem não foram esclarecedores. Esse tipo de intercorrência com o grande progresso da tecnologia está diminuindo muito pois hoje a Ressonância Nuclear Magnética está dando resolução muito alta, 20 vezes maior do que os aparelhos anteriores que rapidamente se tornaram obsoletos.
Estes conceitos devem ser claramente compreendidos, já que é de se esperar respostas diferentes das habituais de pacientes portadores de problemas congênitos. Ressalto para o fato de haver problemas que estão compensados e não permitem fazer diagnóstico, mas que se descompensam quando outros são tratados. Nesse ponto é muito adequada a frase de Clarice Lispector: “Até cortar defeitos pode ser perigoso; nunca se sabe qual deles sustenta nosso edifício interno.”
7. Falhas técnicas – A falha técnica precisa ser bem entendida pela falta de domínio que o médico tem no comportamento da aparelhagem e nas próteses que podem se “romper” ou mesmo “trincar por fadiga” mesmo que aquele lote tenha sido corretamente testado. A estatística tem um intervalo de confiança que em biologia admite-se como sendo de 5%.
8. Erro escusável ou profissional – Esse item reúne problemas dificilmente entendido por leigos mas bem claro para os juízes. Trata-se do contingente dependente de falha de um procedimento decorrente do não funcionamento do instrumental utilizado. Em agricultura é fácil entender que um agrônomo ao mandar tratorar uma área pode deparar com uma grande pedra que quebra o trator: trata-se de fato previsível mas não esperado. Casos raros em cirurgia são decorrentes de fadiga do material, do qual é feito o instrumental cirúrgico, são protegidos pelo contrato de meio.
10. Tecnologia moderna
O grande progresso tecnológico dessa década tem alterado conceitos, hoje vê-se com clareza o que não se via e assim muitos problemas são entendidos, encontraram soluções inimagináveis.
O Raio X evoluiu muito desde Röntgen em 1895, foi possível criar aparelhos menores, portáteis, com melhor resolução e menor radiação. Um exemplo é a fluoroscopia, no início analógica, era grande a necessidade de contraste. Com o advento da tecnologia digital e dos computadores, foi possível melhorar a imagem e diminuir a necessidade de contraste iodado, devido ao tratamento dado às imagens obtidas, pelo computador. A evolução foi tanta, que é possível utilizar derivados de gadolíneo Gd, elemento químico de número atômico 64, peso atômico 156,9 um contraste paramagnético utilizado freqüentemente na ressonância magnética, que quase não causa efeitos adversos, e preserva a função renal. A imagem ainda não é ideal, portanto não é indicado para todos pacientes, também devido ao alto preço, mas provavelmente, num futuro próximo, a imagem produzida por esse contraste será muito melhor. A possibilidade de armazenar os exames e procedimentos em mídias como CD ou DVD, possibilitam a visualização do exame em movimento e com a mesma qualidade, o que também diminui a necessidade de novos exames.
Nessa transformação vertiginosa faz-se sentir necessária uma análise crítica com os seguintes quesitos: o que os novos aparelhos oferecem a mais do que os anteriores, o custo benefício de cada exame e o custo real do diagnóstico “limitado” usando aparelho obsoleto.
Devemos pensar em duas situações: A 1ª é que um método diagnóstico com os recursos tecnológicos da atualidade, a cada dia que passa se aprimora mais ainda, tornando os das gerações anteriores, cada vez mais obsoletos. Assim exemplificando com o Ecodopler, este há 30 anos atrás era branco e preto, monodimensional, depois bidimensional e agora tridimensional. Temos também o ecodopler tecidual que permite a visualização do fluxo no miocárdio. A cor também foi introduzida no bidimensional. Inicialmente o Doppler era utilizado até sem registro e depois com registro linear e mais adiante associado à ecografia. Temos que lembrar que todo esse progresso tecnológico aprimorou sobremaneira o método, permitindo a identificação de problemas antes impossíveis de serem diagnosticados, entretanto, todos esses métodos tem indicação precisa. Por exemplo, uma estenose mitral é perfeitamente diagnosticada pelo ecocardiograma monodimensional. Só que se o paciente tiver associado também má formação congênita, esse método não irá diagnosticar, é necessário o ecodoplercardiograma colorido, que facilmente visualiza fluxos anômalos, pela diferenciação das cores. Ou seja, um método veio complementar o outro. Hoje um ecocardiograma branco e preto pode servir para casos em que não seja necessário avaliar o fluxo cardíaco, mas não permite o diagnóstico preciso de anomalias congênitas. O ecodopler tecidual, permite melhor avaliação da contratilidade do miocárdio podendo-se identificar regiões com acinesia o que pode passar desapercebido num aparelho sem esse recurso.
Outro exemplo é a Ressonância Magnética que com 0,5 Tesla (Tesla = densidade de fluxo magnético) permite apenas a visualização de estruturas maiores sem a identificação de detalhes. A partir de 1,5 Tesla sua resolução permite a visualização de vasos. A angioressonância pode ficar cada vez mais precisa conforme aumente essa resolução. Hoje existem aparelhos de até 4 Tesla. Assim não é possível tentar analisar lesão vascular com aparelho de 0,5 Tesla porque não se enxerga nada.
Outra situação é o aparecimento de novos métodos diagnósticos. Esse fato merece muito critério para sua devida utilização. Nem sempre um método novo, aprovado para uso clínico, pode do ponto de vista econômico-financeiro ser utilizado de imediato e muito menos ser substituído por outros até então tidos como padrão-ouro. É necessário o devido estudo de custo benefício para a população a ser avaliada. Considerando o fato de que a utilização de contraste (aliás extremamente caro) com aparelhos de 0,5 Tesla na tentativa de visualizar o vaso, tem como resultado falso positivo gerando “erro em dominó”, com encarecimento inútil e grande prejuízo ao paciente. Chega a tornar desonesta essa tentativa sabidamente errada.
11. Considerações finais
Para terminar essa mensagem é conveniente destacar a importância social do tema e inferir o que deve ser feito e a quem cabe essa atribuição, que apresento articulado a seguir:
- Médico, Advogado e Jornalista não podem ignorar a matéria.
- O médico deve ter a consciência de que incompetência é condenada pela Justiça como imperícia.
- O Advogado deve buscar a verdade, seja ele de defesa, de acusação, ou juiz.
- O jornalista, como formador de opinião, deve esclarecer à sociedade; alertando-a de que a medicina tem limitações e que seu objetivo é cuidar do paciente e, se possível, mas não obrigatoriamente, curá-lo.
O esforço conjugado ajudará colocar a saúde de nosso povo no círculo virtuoso de desenvolvimento.
Prof. Dr. Irany Novah Moraes